Pinduca ganhou até um disco de ouro

Até que um dia encontrou um tal de Pinduca e seu Carimbó. Foi tiro e queda. Já ganhou até um disco de ouro.

Não é todo dia que uma cantora ganha um disco de ouro, quanto mais dois. Mas ao som do carimbó, parece que tudo é possível. Até mesmo reunir para um bate-papo Eliana Pittman e Pinduca, a dupla que trouxe esse ritmo do interior do Pará para o Rio e agora vai levá-la até a Venezuela. Melhor ainda, encontrá-los na festa de aniversário de uma das afilhadas de Eliana, em que até o Parabéns pra Você é cantado no balanço do carimbó. E, pra começo de conversa, a história de como os dois se conheceram. “Esse cara maravilhoso pintou na minha vida artística na praia de Olho-d’água, em São Luís do Maranhão. Quando ouvi o carimbó, senti uma coisa diferente. Descobri que era o que eu e meu produtor, o Sérgio Cabral, estávamos procurando para o meu LP Tô Chegando, Já Cheguei. Gravei uma faixa com a mistura de três músicas de carimbó numa só e, daí em diante, achei que devia continuar, porque foi uma maneira de me identificar com o público, que me admirava, mas não me entendia.” E, par explicar o que é o carimbó, entra em cena Aurino Gonçalves, o Pinduca (apelido escolhido em homenagem aos personagem das histórias em quadrinhos).

Do Pará para o mundo

“O carimbó é a música e a dança folclórica do Pará. É afro-brasileira, com influência indígena e. portuguesa, e retrata o cotidiano do caboclo. Eu conheço o carimbó desde que me entendo por gente, mas fui redescobri-lo numa festa no interior do Pará, onde dancei com os caboclos. Como sou dono de um conjunto musical em Belém, achei que devia trazer o ritmo pra cidade.

“Pinduca já gravou cinco LPs de carimbó (“uma mistura de carimbó e siriá criada por mim”), mas só era conhecido no Norte e Nordeste. Agora está no Rio para abafar a banca. Só que antes dele, o ritmo já se tornou sucesso em todo o pais, na voz de Eliana, e agora ela vai gravá-la em espanhol. “Na vida da gente tudo tem o seu momento. Depóis de 15 anos de carreira é que consegui meu primeiro disco de ouro. Eu nunca havia pensado em receber esse prêmio e tudo indica que o segundo vem por aí. Não posso dizer que o carimbó seja a expressão máximada música brasileira, mas, com essa divulgação, o povo conheceu um ritmo tipicamente brasileiro, que a está deixando de ser regional para ser nacional e até internacional.”. Aulas de guitarra

Entrevista com Pinduca

09 de Outubro de 1994 – O Liberal

O Pinduca é diferente do Aurino?
É. Houve ocasiões quando eu estava na ativa que os soldados meus subordinados me chamavam de Pinduca, então eu dizia: “Vamos fazer uma diferença. Aqui no quartel eu sou o tenente Aurino e lá fora eu sou o ‘Pinduca, o cantor”. Quando eu estou no palco eu sou o artista. Eu me transformo mesmo com as minhas roupas. Faço meus requeros, canto e animo, agora fora dele eu sou uma pessoa muito regada à família e tranquila.

Tem alguma coisa que o intimide?
A única coisa capaz de me deixar nervoso é chegar no lugar o show e ver que só tem três ou quatro pessoas no público, mas tem que ser três ou quatro porque até para 12 pessoas eu já fiz
show.

Como foi isso?
Foi em um garimpo distante 5 minutos de carro de Porto velho. Quando eu cheguèi lá encontrei um curral enorme, que foi montado na beira da lavra, com um barzinho e um conjunto tocando. Eu contei 12 pessoas. Foi show mais longo que eu já fiz na minha vida. Nessa época eu
tomava cerveja.e então eu disse para as pessoas: “vocês pagaram para ver um show do Pinduca? então vocês vão ter um show”. Eu fiz mais ou menos uma meia hora de show normal e depois eu passei a cantar sentado nas mesas das pessoas. Para encerrar: eu comecei esse show à meia-noite e terminei às quatro horas. Agora tem um detalhe: eu tava bebendo com eles.

Por que cantar carimbó?
Eu sempre acreditei que há uma luz divina para aquilo que nós temos que ser aqui na Terra.
Quando eu era garoto em Igarapé-Miri, eu já era convidado para cantar nos conjuntos de
merengúê, que é nada mais do que o carimbó com outro nome. Depois que eu já tinha conjunto, na década de 60, eu fui uma vez a Iria, vi uma roda de carimbó e me envolvi com aquilo. Quando voltei para Belém eu senti que meu caminho era aquele. Foi nesta época que eu peguei uma vaia no Satélite.

Vaia?
É, vaia. O Satélite era um clube que ficava na rodovia Augussto Montenegro e reunia os estudantes universitários aos domingos. Eu resolvi estrear o carimbó lá. Quando eu anunciei que ia cantar carimbó eu levei uma vaia tão grande, mas tão grande, que eles não queriam parar. Depois de uns 30 minutos eu gritei no microfone: “Afinal, vocês não vão parar de dar vaiar? Pois eu vou cantar mesmo”. Aí eu cantei e saíram dois pares para dançar. O clube reunia em média dois mil jovens. Eu não me irritei, pelo contrário, senti aquilo como um incentivo. Depois de mais ou menos uma hora, eu voltei a anunciar que ia cantar carimbó. Eles voltararam a me vaiar, mas dessa vez foram só 10% e quando eu cantei saíram 12 pares. Naquela época o carimbó era encarado como algo de baixa categoria.

E depois dessa vaia, não houve mais nenhuma?
Não. Até porque a gente aprende a levar o show. É claro que a gente tem que engolir alguns sapos. Às vezes eu estou fazendo um show e lá atrás tem uma pessoa fazendo cotoco”, outro passa perto e faz uma piada forte, outro faz sinal para a gente sair do palco. Mas eu engulo isso sorrindo porque a pessoa que está fazendo aquilo não está me pagando. Eu estou com a maioria do meu lado. Tem uma outra coisa engraçada do meu começo de carreira. Eu costumava fazer muitos shows no bar São Jorge, na Condor. Naquela época o Costa Filho, que é meu amigo e já gostava do meu estilo, tinha uma brincadeira comigo. No meio da noite ele fazia um sinal para mim e eu começava a cantar em inglês. Só que não era nada de ingles, eu ficava enrolando a língua e fingindo. O público ia à loucura e tornava mais ânimo para dançar. Alguns até me acompanhavam, “cantando” também a música.

Quais são suas pequenas vaidades?
Eu sou fã do cheiro-do-pará porque é uma coisa nossa. Eu já coloquei o cheiro-do-pará em vidros de perfume francês e dei para as pessoas e elas aceitaram. O cheiro que eu uso eu mesmo preparo. Eu aprendi a f6rmula com a dona Carmem, da Condor. O cheiro que eu jogo no público é composto por atrativos como olho de boto, jibóia. Eu também gosto de usar perfume francês, mas não tenho nenhum específico.

Que tipo de coisas as pessoas atiram no palco durante seus shows?
Eu recebo muitos presentes. Aqueles que eu posso colocar no meu chapéu, eu coloco. O que eu recebo mais são flores. Mas a coisa mais engraçada que jogaram em mim foi um copo de cerveja na cara. Foi em um show em Recife. Um rapaz muito fora dele passou perto de mim e jogou a cerveja. Depois a polícia prendeu ele.

Você já teve seu show barrado nos clubes da sociedade paraense?
O meu conjunto musical tocava merengue e o ritmo concorria para que e meu conjunto não fosse convidado porque não era música de sociedade. Agora que os clubes da sociedade não me chamavam é verdade. Era uma questão social mesmo. Naquele tempo as pessoas diziam que o Pinduca era um músico que tocava muito em gafieira.

Porque o carimbó, ao contrário dos ritmos baianos, nunca teve grande repercussão nacional?
Eu posso dizer que o carimbó só é conhecido hoje no Brasil graças à Eliana Pitmann, que eu chamo de meu braço direito, e ao meu esforço. Os baianos estão aí porque são financiados pelo governo.

Alguma vez você foi tratado como um “exemplar exótico da região Amazônica?
Logo que comecei a aparecer na televisão, o pessoal do Sul achava que aqui a gente andava no meio dos bichos. Para eles era isso que eu estava representando, com meu jeito de dançar, com o chapelão na cabeça e com músicas diferentes. As pessoas ficavam admiradas.

Esse seu estilo não é brega?
Eu gosto de mulher com brinco grande, cheia de pintura, essas coisas que chamam de brega. Se isso é brega, eu gosto de brega e posso até ser um brega.

Qual é o lado feminino do Pinduca?
Eu fiz uma música, que não cheguei a gravar no último dísco, que falava que até meu lado feminino é sapatão. Eu acho que o meu lado feminino é o lado sapatão que eu tenho.

Como é sua relação com os fãs?
Eu gosto de cumprimentar as pessoas e de brincar com elas da mesma maneira como brinco no palco. Já houve gente da minha maior intimidade que depois de um show ficou gritando querendo pegar na minha mão, como se eu não tivesse a intimidade de amanhã ou depois estar na própria casa daquele amigo. Eu achei isso meio esquisito.

Você já levou muito calote de produtor?
Não tantos porque eu cobro o show antes. No começo da carreira eu engoli alguns calotes. Depois a gente vai amadurecendo e vai aprendendo como deve agir.
Algumas pessoas o acusam de se apropriar de músicas de cnmpositores desconhecidos de carimbó do interior.
Eu gostaria de esclarecer as pessoas que pensam assim que quando você encontra no disco de um cantor as letras DP ou DR, elas se referem à procedência da música. DR quer dizer “direitos reservados” e DP “domínio público”. Leia: curso de guitarra online

E quanto ao mestre Lucindo?
Eu queria aproveitar para esclarecer também que depois que a Fafá de Belém gravou música do falecido mestre Lucindo e depois que outros gravaram músicas dele, como o grupo Manga Verde, eu também gravei. Eu fui o único cantor que foi a Marapanim procurar pelos familiares dele por-que eu queria prestar uma home-nagem ao mestre Lucindo gravando a música do pescador. Mas infelizmente só encontrei filhosde criação. Eu então tentei que o filho de criação de mestre Lucindo recebesse todos os direitos autorais. Eu mesmo procurei através de gravadoras e editores o total desses direitos e mandei para lá. Porque tem gente em Marapanim que pensa que eu “meti a mão” no dinheiro dos direitos autorais do mestre Lucindo. eu só gravei música dele depois que ele morreu. Se alguém provar isso eu estou às ordens direitos Em direitos autorais ninguém mete a mão. O dinheiro do mestre Lucindo se acaba porque não tem quem receba. Esse dinheiro fica retido se acabando na mão não sei de quem. Segundo eu fui informado pelo filho de criação de mestre Lucido Ronilson, o juiz não quis dar a ele o alvará para que ele recebesse os direitos autorais que eu encaminhei direitinho. Leia também: Como tocar Guitarra

O carimbó é uma dança sensual. O seu público fica excitado quando você canta carimbó?
Sim. Têm pessoas que dançam e quando eu faço uma parada trocar de música continuam dançando sem música. Da mesma forma, tem um número que faço cantando a música da cabocla Mariana que é normal as pessoas pegarem santo no salão.

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Criações

Depois de já ser considerado um criador de novos ritmos, Pinduca criou a Lambada.”Certa vez em minha casa , por ocasião de um ensaio do meu conjunto musical, criei algo, que não era nem samba, nem carimbó, nem mambo, mas era um ritmo gostoso. Dias depois fui tocar num baile na sede do Coqueiro, a festa estava desanimada, foi aí que eu me lembrei de mandar tocar aquele ritmo que surgiu no ensaio, e pra minha surpresa, o salão ficou cheio de dançantes, nesta hora me veio no pensamento, o que é que esperta a pessoa: uma lambada de cinturão ou uma lapada de cachaça para espertar o homem para o trabalho? Foi assim que eu escolhi o nome para o gênero musical: lambada”.

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“Tentei com o Sr. Rosvaldo, que na época era dono da gravadora Beverly e depois Copacabana, para que eu gravasse esse gênero que havia criado, ele não aceitou porque eu já tinha uma identidade musical, e isto podia complicar a minha carreira, mas me autorisou a encontrar na época alguém que pudesse gravar este gênero, e o tempo foi passando, até que levei para gravar em São Paulo, o Texeira (de Manaus) , o Mário Gonçalves e o Oséas. Mas, acredito que nesse período, por causa da divulgação que os nossos saudozos amigos radialistas Paulo Ronaldo e Haroldo Caraciôlo faziam nos seus programas de rádio, outros aproveitaram a onda e gravaram, como: o Vieira e outro que não me lembro. Por que os dois radialistas divulgavam? Ninguém havia gravado, mas os dois frequentavam uma boite que tinha ou ainda tem na entrada do bairro de Canudos, de nome Chamêgo e na época que eu criei o gênero, eu tocava lá, eles me pediam aquela música e eu chegava a tocar até cinco vezes na noite”.

Eles tocavam no programa de rádio merengue e anunciavam com o nome de lambada, e assim começou, até que surgiram as gravações e com isto a lambada saiu do Pará, ganhou o Brasil e o Mundo.

Quando a lambada entrou em Salvador, lá em Porto Seguro, ela já tinha sofrido uma ou várias metamorfoses musicais, recebendo uma coreografia bonita, mas que não foi suficiente para manter a lambada por muito tempo no sucesso. Os mínimos detalhes desta história musical e de outras, estarão no livro que Pinduca pretende lançar em breve.

Lambada (Sambão) – Vol 5
Lambada Nº 2 – Vol 6
Lambada Nº 3 – Vol 7
Melô do Estivador – Vol 8

Como nasceu o Sirimbó

Quando Pinduca começou a divulgar o carimbó dentro da capital, causou grandes polêmicas, pois o ritmo era muito conhecido nas regiões bragantinas e nas regiões do salgado (forma como são identificadas algumas regiões do nosso Estado).

“Certa ocasião meu conjunto musical foi contratado para um baile, na cidade de Irituia, lá estava contecendo uma festa de carimbó me empolguei com a animação dos que dançavam, e resolvi a partir daquela data, introduzir no meu repertório o carimbó.

Durante a festa de Nazaré quando Pinduca tocava um carimbó, tinha que tocar também um siriá, porque os residentes do Baixo Tocantins ali presentes discutiam com os Bragantinos, achando que um ritmo era melhor que outro.

Daí veio a idéia de Pinduca fazer uma mistura de carimbó e siriá, nascendo o SIRIMBÓ.

Pinduca desde sua adolescência, conhece tanto o siriá como o carimbó, pois é descendente de uma família de músicos, como seu pai, que era professor de música no município de Igarapá-Miri. Portanto não lhe foi difícil misturar os dois ritmos.

História do Langode

No ano de 1989, Pinduca e Elias Muniz, encontraram-sem em São Paulo, e como já eram velhos amigos, resolveram crair um novo ritmo, já que Elias é um grande compositor, famoso e conhecidissímo no Brasil.

No hotel Paramount, em São Paulo, criaram o Langode, que vem a ser a mistura da Lambada com o Pagode, o qual foi imediatamente gravado pelo grande cantor Jair Rodrigues. Neste disco em vinil, recebeu destaque sendo a 1ª faixa do lado B.

Langode – (Pinduca e Elias Muniz) Intérprete: Jair Rodrigues

Como nasceu o Lári, Lári

Também é criação de um novo ritmo que Pinduca lançou através de seus discos, no decorrer de sua carreira artística.

Lári, Lári, pode se dizer que é também uma mistura de ritmos. Pela sua divisão musical, pode ser executado como Mambo ou Arrasta-pé.

Este nome – Lári, Lári – foi tão forte que, em Belém do Pará, chegaram a criar um ditado popular onde se falava:

” Tú estás parece o Pinduca: é só Lári, Lári.”

Lári, Lári – Vol 4
Lá Lariá – Vol 5
Lári, Lári ê – Vol 5

A nova moda: Xengo, xengo

Xengo, Xengo é uma nova moda em ritmo acelerado, que Pinduca está lançando em seu novo disco, o CD de nº 30.

Para evitar a mesma polêmica que aconteceu com a Lambada, criada por Pinduca, e que depois muitos artistas entitularam-se os autores, Pinduca previniu-se durante as gravações de seu último disco, pedindo para que os vocalistas maestro Poty, Socorro Raulino (esposa do maestro) e a Sra Patricia de Oliveira gravarem o chamam de assinatura, nas músicas que têm como ritmo o Xengo, Xengo. Leia: Como Tocar Cavaquinho

Nas gravações, se canta mais ou menos assim: “PINDUCAaaaa e o XENGO, XENGOôôô.”

É uma mistura de carimbó com forró, muito embora se pareça com outros ritmos já existentes. Pinduca garante, porém, que a diferença se encontra na percussão.

Quer Aprender a tocar cavaquinho? veja como.