Pinduca, sinônimo de Carimbó

02 de Julho de 2000 - O Liberal

Lançando o 28º disco de sua carreira, e com um inédito gravado e pronto para chegar às lojas, Aurino Quirino Gonçalves, ou simplesmente Pinduca, como é conhecido dentro e fora do Pará, está empolgado: quer sacudir a poeira e colocar o carimbó na ordem do dia, novamente.

Para isso, tratou de se empenhar pessoalmente na missão, ao ponto de ir para a Praça da República, nas manhãs de domingo, para vender seu novo disco e fazer com que o público se lembre do quanto é bom dançar carimbó. Ele vendeu cerca de 500 cópias em três semanas, e não descarta a possibilidade de voltar a travar esse tipo de contato direto com os fãs. “Faziam fila para comprar o disco e falar comigo. Queriam saber o porquê de eu estar ali”, lembra.

Pinduca sabe da situação precária em que se encontra a cultura popular. “No carimbó, só sobrou eu e o Verequete, eu no meu estilo e ele no dele, que são diferentes. Mas não tem mais ninguém para segurar essa luta”, analisa. Pinduca tornou-se conhecido nacionalmente como “rei do carimbó”, com seu chapelão cheio de penduricalhos do Ver-o-Peso, em 1973, quando lançou seu primeiro disco. Mas sua história com a música começou bem antes, em Igarapé-Miri, onde nasceu.

Na época, os bailes nas cidades do interior (e em Belém também) eram animados pelas orquestras de jazz (pronunciavam “jázzi”), e Aurino (que ainda não era Pinduca) tinha um irmão baterista numa dessas bandas. Aos 14 anos, recebeu um convite para tocar pandeiro e maracas numa banda. “Tinha uma rádio na cidade, que chamava Serviço de Educação e Cultura. Então eu ia, todo dia, umas cinco horas da tarde, para debaixo do poste com o autofalante, colocava um banquinho, levava meu pandeiro e as maracas e ficava acompanhando as músicas que tocavam, sozinho, no meio da rua”, lembra.

Sua estréia aconteceu numa apresentação que unia as melhores orquestras de Abaetetuba e de Igarapé-Miri, a “Jazz Combinado”. Quando o primeiro mambo começou a ser executado, o garoto Aurino foi para frente com suas maracas e deu um show de ritmo e bailado. “Foi um sucesso, eu era o menudo de Igarapé-Miri, o Michael Jackson de lá”, lembra, divertido.

Seguiu, então, seu caminho como músico, recebeu o apelido “Pinduca” em uma brincadeira de São João (lembrança de uma tira de quadrinhos publicada nos jornais, na época em que era criança), veio para Belém e teve sua própria orquestra de baile. Quando descobriu o carimbó, achou que o ritmo tinha que ser tocado nas festas e apreciado pelo público. Nas primeiras execuções, tudo o que recebeu foi vaias fenomenais pela ousadia. “Isso parou quando gravei o disco, só de carimbó, que estourou”.

O chapéu grande de palha, que acabou virando marca registrada, é outra das muitas histórias que Pinduca diz querer reunir em livro. Quando recebeu o primeiro convite para ir a um programa de TV, em São Paulo, pensou que tinha que preparar algo diferente para chamar a atenção. Durante uma viagem pelo interior, de barco, pensou num figurino: blusa com mangas borboleta, estampada, calça e sapatos impecavelmente brancos. Viu um caboclo com o chapelão e se aproximou. “Contei para ele o que queria, perguntei onde encontrar um chapéu daquele. Ele gostou tanto da minha idéia que me deu o seu chapéu. Eu enfeitei, coloquei miniaturas de artesanato, cheiro, tudo do Ver-o-Peso”. O chapéu faz sucesso ainda hoje. “Aquele primeiro me roubaram, num dos shows. Depois dele, foram quatro, todos roubados também. Se eu descuidar, levam”, conta.

Quase ao vivo - No ano passado, Pinduca gravou um disco só com músicas inéditas. A idéia era fazer um “quase ao vivo”. Ele levou um grupo de estudantes do colégio Paes de Carvalho, que haviam escutado e ensaiado suas novas músicas previamente, para fazer coro dentro do estúdio, e gravou com sua banda, “como se fosse ao vivo”. Antes de lançar o novo trabalho no mercado, porém, recebeu uma proposta da produtora do grupo de forró cearense Mastruz com Leite para fazer uma coletânea de sucessos. O novo trabalho ficou guardado. Se a receptividade e a vendagen forem boas, Pinduca já está com seu novo disco engatilhado. “É inédito, eu tenho trabalhado mais as letras das músicas. De regravação mesmo, só a ‘Marcha do Vestibular’, porque eu decidi que, em todos os meus discos, ela vai estar. As pessoas vão bater na minha casa, na época do vestibular, procurando pela música. Assim, fica mais fácil”, justifica.