Pinduca ganha o mundo

29 de julho de 2000 - O Liberal

De Belém para Berlim, o cantor e compositor Pinduca atravessa as fronteiras e leva pela primeira vez o seu carimbó para a Europa. Pinduca é o único artista da região Norte brasileira convidado para participar do Festival de Música e Expressão Corporal de Berlim e embarca hoje com sua banda, dançarinas e o coreógrafo e dançarino Marcelo Thiganá para a Alemanha.

O festival deste ano em Berlim tem como tema os 500 anos de descobrimento do Brasil, por isso foram convidados artistas de todas regiões do País, representantes de vários estilos da Música Popular Brasileira. “Me pediram para fazer os europeus dançarem e é isso que eu vou tentar, porque o nosso ritmo é muito envolvente”, diz Pinduca.

O convite foi feito através do Instituto Cultural do Brasil na Alemanha (ICBRA) há cerca de nove meses e Pinduca tem trabalhado na elaboração do show há quatro. Pinduca já fez shows em outros países da América Latina, na Guiana Francesa e na África, mas esta é a primeira vez em que viaja para a Europa.

O show tem aproximadamente duas horas de duração e foi dividido em 20 números de pout-pourris com quatro músicas cada, recheados de muito carimbó, merengues, cúmbias e samba. Serão cinco dias de apresentação e Pinduca diz que ainda há uma expectativa de levar o show para a Expo 2000, em Hanover. “Nosso trabalho está chamando a atenção por lá e pode ser que nos levem para outro show no pavilhão brasileiro desse outro festival”, torce.

Acompanhando Pinduca vão os músicos Neném (bateria), Pedrinho (guitarra), Cidnai (baixo), Josiel (percussão), Gonçalves (pistom), Passos (pistom), Barbosa (sax) e Lima (trombone), e as bailarinas Shwila, Ana Taliane, Daniele e Elisângela. O dançarino e coreógrafo Marcelo Thiganá também acompanha o grupo coordenando os números coreográficos e fazendo participações especiais em alguns momentos do show.

Abrir portas - Pinduca também acredita que este será um bom momento para abrir portas para o carimbó na Europa. “Quando eu toquei na África, recebi várias propostas para outros shows, mas não pude aceitar porque não tinha um empresário me acompanhando. Dessa vez, nós teremos um empresário lá na Alemanha nos esperando, para podermos fazer shows internacionais”, explica.

Apesar de não falar alemão, Pinduca não vê a língua como uma barreira. “Quando estou cantando, canto em qualquer idioma. Também tem brasileiro lá nos esperando”, brinca. Na bagagem, Pinduca também leva seu disco mais recente, o 28º de sua carreira e primeiro que registra sua performance ao vivo. Foi gravado em shows feitos pelo Nordeste e lançado em Belém nos meses de maio e junho, com o empenho pessoal do cantor que foi para a Praça da República durante três domingos, armou sua banquinha para verder o disco e ter contato direto com o público na tentativa de levantar a discussão em torno do ritmo regional e colocá-lo novamente como foco central de atenção da mídia.

Independente do sucesso ou do fracasso dessa tentativa, Pinduca continua defendendo a necessidade de mais organização e investimento para a cultura regional. Com a experiência de quem viveu momentos de glória na década de 70, quando o carimbó virou mania nacional, ele chama a atenção para a falta de cuidado com que os cantores de brega têm lidado com o momento de sucesso atual. “Tem cantor fazendo show por qualquer cem reais. Não pode. Eles precisam se unir, organizar e valorizar o seu trabalho. Porque depois que esse momento passar, eles não terão nada. Lamentavelmente eles não estão sabendo aproveitar bem esse momento”. E exemplifica com o próprio ritmo que o transformou em “rei”: “No carimbó, só sobrou eu e o Verequete, eu no meu estilo e ele no dele, que são diferentes. Mas não tem mais ninguém para segurar essa luta”.