Entrevista com Pinduca

09 de Outubro de 1994 – O Liberal

O Pinduca é diferente do Aurino?
É. Houve ocasiões quando eu estava na ativa que os soldados meus subordinados me chamavam de Pinduca, então eu dizia: “Vamos fazer uma diferença. Aqui no quartel eu sou o tenente Aurino e lá fora eu sou o ‘Pinduca, o cantor”. Quando eu estou no palco eu sou o artista. Eu me transformo mesmo com as minhas roupas. Faço meus requeros, canto e animo, agora fora dele eu sou uma pessoa muito regada à família e tranquila.

Tem alguma coisa que o intimide?
A única coisa capaz de me deixar nervoso é chegar no lugar o show e ver que só tem três ou quatro pessoas no público, mas tem que ser três ou quatro porque até para 12 pessoas eu já fiz
show.

Como foi isso?
Foi em um garimpo distante 5 minutos de carro de Porto velho. Quando eu cheguèi lá encontrei um curral enorme, que foi montado na beira da lavra, com um barzinho e um conjunto tocando. Eu contei 12 pessoas. Foi show mais longo que eu já fiz na minha vida. Nessa época eu
tomava cerveja.e então eu disse para as pessoas: “vocês pagaram para ver um show do Pinduca? então vocês vão ter um show”. Eu fiz mais ou menos uma meia hora de show normal e depois eu passei a cantar sentado nas mesas das pessoas. Para encerrar: eu comecei esse show à meia-noite e terminei às quatro horas. Agora tem um detalhe: eu tava bebendo com eles.

Por que cantar carimbó?
Eu sempre acreditei que há uma luz divina para aquilo que nós temos que ser aqui na Terra.
Quando eu era garoto em Igarapé-Miri, eu já era convidado para cantar nos conjuntos de
merengúê, que é nada mais do que o carimbó com outro nome. Depois que eu já tinha conjunto, na década de 60, eu fui uma vez a Iria, vi uma roda de carimbó e me envolvi com aquilo. Quando voltei para Belém eu senti que meu caminho era aquele. Foi nesta época que eu peguei uma vaia no Satélite.

Vaia?
É, vaia. O Satélite era um clube que ficava na rodovia Augussto Montenegro e reunia os estudantes universitários aos domingos. Eu resolvi estrear o carimbó lá. Quando eu anunciei que ia cantar carimbó eu levei uma vaia tão grande, mas tão grande, que eles não queriam parar. Depois de uns 30 minutos eu gritei no microfone: “Afinal, vocês não vão parar de dar vaiar? Pois eu vou cantar mesmo”. Aí eu cantei e saíram dois pares para dançar. O clube reunia em média dois mil jovens. Eu não me irritei, pelo contrário, senti aquilo como um incentivo. Depois de mais ou menos uma hora, eu voltei a anunciar que ia cantar carimbó. Eles voltararam a me vaiar, mas dessa vez foram só 10% e quando eu cantei saíram 12 pares. Naquela época o carimbó era encarado como algo de baixa categoria.

E depois dessa vaia, não houve mais nenhuma?
Não. Até porque a gente aprende a levar o show. É claro que a gente tem que engolir alguns sapos. Às vezes eu estou fazendo um show e lá atrás tem uma pessoa fazendo cotoco”, outro passa perto e faz uma piada forte, outro faz sinal para a gente sair do palco. Mas eu engulo isso sorrindo porque a pessoa que está fazendo aquilo não está me pagando. Eu estou com a maioria do meu lado. Tem uma outra coisa engraçada do meu começo de carreira. Eu costumava fazer muitos shows no bar São Jorge, na Condor. Naquela época o Costa Filho, que é meu amigo e já gostava do meu estilo, tinha uma brincadeira comigo. No meio da noite ele fazia um sinal para mim e eu começava a cantar em inglês. Só que não era nada de ingles, eu ficava enrolando a língua e fingindo. O público ia à loucura e tornava mais ânimo para dançar. Alguns até me acompanhavam, “cantando” também a música.

Quais são suas pequenas vaidades?
Eu sou fã do cheiro-do-pará porque é uma coisa nossa. Eu já coloquei o cheiro-do-pará em vidros de perfume francês e dei para as pessoas e elas aceitaram. O cheiro que eu uso eu mesmo preparo. Eu aprendi a f6rmula com a dona Carmem, da Condor. O cheiro que eu jogo no público é composto por atrativos como olho de boto, jibóia. Eu também gosto de usar perfume francês, mas não tenho nenhum específico.

Que tipo de coisas as pessoas atiram no palco durante seus shows?
Eu recebo muitos presentes. Aqueles que eu posso colocar no meu chapéu, eu coloco. O que eu recebo mais são flores. Mas a coisa mais engraçada que jogaram em mim foi um copo de cerveja na cara. Foi em um show em Recife. Um rapaz muito fora dele passou perto de mim e jogou a cerveja. Depois a polícia prendeu ele.

Você já teve seu show barrado nos clubes da sociedade paraense?
O meu conjunto musical tocava merengue e o ritmo concorria para que e meu conjunto não fosse convidado porque não era música de sociedade. Agora que os clubes da sociedade não me chamavam é verdade. Era uma questão social mesmo. Naquele tempo as pessoas diziam que o Pinduca era um músico que tocava muito em gafieira.

Porque o carimbó, ao contrário dos ritmos baianos, nunca teve grande repercussão nacional?
Eu posso dizer que o carimbó só é conhecido hoje no Brasil graças à Eliana Pitmann, que eu chamo de meu braço direito, e ao meu esforço. Os baianos estão aí porque são financiados pelo governo.

Alguma vez você foi tratado como um “exemplar exótico da região Amazônica?
Logo que comecei a aparecer na televisão, o pessoal do Sul achava que aqui a gente andava no meio dos bichos. Para eles era isso que eu estava representando, com meu jeito de dançar, com o chapelão na cabeça e com músicas diferentes. As pessoas ficavam admiradas.

Esse seu estilo não é brega?
Eu gosto de mulher com brinco grande, cheia de pintura, essas coisas que chamam de brega. Se isso é brega, eu gosto de brega e posso até ser um brega.

Qual é o lado feminino do Pinduca?
Eu fiz uma música, que não cheguei a gravar no último dísco, que falava que até meu lado feminino é sapatão. Eu acho que o meu lado feminino é o lado sapatão que eu tenho.

Como é sua relação com os fãs?
Eu gosto de cumprimentar as pessoas e de brincar com elas da mesma maneira como brinco no palco. Já houve gente da minha maior intimidade que depois de um show ficou gritando querendo pegar na minha mão, como se eu não tivesse a intimidade de amanhã ou depois estar na própria casa daquele amigo. Eu achei isso meio esquisito.

Você já levou muito calote de produtor?
Não tantos porque eu cobro o show antes. No começo da carreira eu engoli alguns calotes. Depois a gente vai amadurecendo e vai aprendendo como deve agir.
Algumas pessoas o acusam de se apropriar de músicas de cnmpositores desconhecidos de carimbó do interior.
Eu gostaria de esclarecer as pessoas que pensam assim que quando você encontra no disco de um cantor as letras DP ou DR, elas se referem à procedência da música. DR quer dizer “direitos reservados” e DP “domínio público”. Leia: curso de guitarra online

E quanto ao mestre Lucindo?
Eu queria aproveitar para esclarecer também que depois que a Fafá de Belém gravou música do falecido mestre Lucindo e depois que outros gravaram músicas dele, como o grupo Manga Verde, eu também gravei. Eu fui o único cantor que foi a Marapanim procurar pelos familiares dele por-que eu queria prestar uma home-nagem ao mestre Lucindo gravando a música do pescador. Mas infelizmente só encontrei filhosde criação. Eu então tentei que o filho de criação de mestre Lucindo recebesse todos os direitos autorais. Eu mesmo procurei através de gravadoras e editores o total desses direitos e mandei para lá. Porque tem gente em Marapanim que pensa que eu “meti a mão” no dinheiro dos direitos autorais do mestre Lucindo. eu só gravei música dele depois que ele morreu. Se alguém provar isso eu estou às ordens direitos Em direitos autorais ninguém mete a mão. O dinheiro do mestre Lucindo se acaba porque não tem quem receba. Esse dinheiro fica retido se acabando na mão não sei de quem. Segundo eu fui informado pelo filho de criação de mestre Lucido Ronilson, o juiz não quis dar a ele o alvará para que ele recebesse os direitos autorais que eu encaminhei direitinho. Leia também: Como tocar Guitarra

O carimbó é uma dança sensual. O seu público fica excitado quando você canta carimbó?
Sim. Têm pessoas que dançam e quando eu faço uma parada trocar de música continuam dançando sem música. Da mesma forma, tem um número que faço cantando a música da cabocla Mariana que é normal as pessoas pegarem santo no salão.

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